Constanza Pascolato
  21/09/2009
  Rossana Gradaschi
 


Na sua opinião, o Brasil é forte em jornalismo de moda?
Eu acho que, com o advento dos blogs, realmente as coisas estão se aprimorando. Moda, é o produto de uma sociedade que já tem uma cultura e está muito bem formada financeiramente. A moda, como dizia Marie Rucki, é fruto de uma sociedade quase decadente já, de tão madura, que tem espaço para aquilo que é especial. A evolução da moda é isso, hoje ele é entendida como cultura, e sobretudo, como manifestação de comportamento de uma sociedade.


E o seu interesse por moda...
Eu gosto de moda por isso, desde o começo, como manifestação de comportamento, é o meu viés de entender a política, a economia, a cultura no geral, comportamento das gerações que eu já vivi.


Já são muitos anos trabalhando com moda não é?
Eu já gostava de moda, e era independente desde 1950, mais de meio século que eu estou nisso. O bom de viver muito é que você já viveu muitas décadas, vivendo mesmo, usando o figurino da época, a roupinha da época.


Você disse a uma revista que acessórios são fundamentais. Qual deles você não sai de casa sem estar usando?
Eles são cada vez mais essenciais eu diria. Mas eu não saio sem um sapato, se não fica difícil...


Quando a moda começou realmente a ser difundida no Brasil?
A moda no Brasil é muito recente. Eu me lembro muito bem, que até os anos 70, quando eu comecei a ser editora de moda da editora Abril, a gente ia pra butiques pegar roupas, ou algumas confecções, em São Paulo apenas, o resto era feito na costureira - que era a maioria da roupa usada pelo povo brasileiro, sem falar na elite claro, era tudo produto de artesanato praticamente. Se isso acontecia nos anos 70, que pra mim não faz tanto tempo assim, a organização da moda, como um fenômeno de uma indústria de difusão, no Brasil, só começou nos anos 90, quando o Collor abriu as porteiras para a importação. O país era protegido, então as pessoas não tinham ideia do que era um produto internacional, a não ser os que viajam, uma imensa minoria. Mesmo que a gente importasse uma coisa bem barata, chinesas, mal feitas. Isso foi um aculturamento nacional da moda, foi o início dos eventos de moda, do Paulo Borges, me lembro que eu ajudei nesse eventos, ele é um craque e ele conseguiu fazer com que houvesse um calendário oficial no Brasil. Se não fosse esse calendário cada estilista tinha o seu calendário para lançar suas coleções.


E sobre a indústria da moda no Brasil?
A indústria que nós temos hoje parece muito, mas não é, para um país. A Itália começou nos anos 60, é óbvio que lá eles tiveram uma maturidade diferente e uma qualidade. Mas a grande revolução vem agora, na segunda década do século 21, no mundo inteiro. O luxo vai mudar, a história toda vai mudar, é um momento sísmico. Depois da crise, as pessoas estão repensando aquilo que vão adquirir, o conceito das pessoas está mudando. Nós vivíamos um frenesi horrível. A febre da bolsa, do sapato, eu achava meio imoral essa história de ter 255 sapatos, todas as roupas caras...


Que tipo de excessos que você percebe nesse sentido?
Agora é tudo escondido, as mulheres gastam pra caramba escondida, até do marido! Os excessos existem e vão existir sempre, sem esses excessos o comércio não vive, dentro de uma sociedade de consumo como a nossa. Você não pode viver dentro de uma colônia hippie de uma hora pra outra. A gente pode criticar, mas estamos bem mergulhados no consumo. Você pode, tranquilamente, entrar numa Renner e se vestir bem. Eu fiz uma produção para a revista estilo com peças que não passavam de 150 reais. Tem gente que acha caro esse valor, mas não é.


Dentro dessa nova perspectiva de evitar excessos, quais peças você acha que são indispensáveis?
A moda está cada vez mais pessoal, hoje você tem uma escolha grande, não só de valor e qualidade, mas de estilo mesmo. Lojas de departamentos, como a Renner, que eu tenho uma admiração e respeito grande, eles conseguem ter peças básicas que ninguém vive sem, como uma calça uma camiseta, a preços acessíveis. Você precisa de uma jaqueta, um blazer, uma camiseta... nem digo uma camisa, porque você precisa ficar passando e é muito chato (risos).


Essas peças são um padrão?
Quando eu publiquei o “Essencial”, em 1997, a gente tinha um padrão que eu meio que repeti nesse, porque pessoas da minha idade, gostam de ter peças como essas, um blazer, e um vestido, que voltou agora a ser uma peça fundamental no guarda roupa, foi a Prada até que tirou o vestido de uma peça de ocasião. Então você precisa ter um vestido, não precisa ser petinho, porque se você gosta de branco ou vermelho, tenha lá o seu vermelinho... Hoje a moda é muito pessoal. Ninguém mais é tão cru que não saiba de moda.


O que é o luxo pra você hoje em dia?
Eu tive o privilégio de acompanhar o começo de tudo isso, que foi basicamente com os grupos franceses italianos, em meados dos anos 90. O Arnauld, que é um grande empresário, teve a ideia de juntar o luxo a um leque gigantesco de ofertas de produtos, que vão de tratamento de beleza até a sei lá o que... O que eles fizeram, a ideia dessa coisa chamada luxo, era que isso era pouco acessível. Eles foram gênios do marketing, porque eles criaram uma indústria que deu muito certo até agora, criando uma série de novos consumidores. Em síntese o conceito de luxo é aquilo que é raro e é caro. O luxo hoje é caro mas não é raro, então ele não é mais luxo.


Como surgiu a ideia pra esse novo livro?
Minha filha é a editora. Eu não tinha a menor vontade de publicar, eu detesto escrever, porque pra escrever uma página é preciso cinco ou seis horas e você tem que falar tudo de uma maneira concisa que todo mundo possa entender... O primeiro livro fez um super sucesso e todo mundo queria que eu fizesse outro. Fiquei dois anos e meio escrevendo esse livro. Eu acho que fechei um ciclo na minha vida, eu mudei de idade e o grande esforço que eu tinha feito pra sustentar minha vida precisava ser contado para as pessoas. O que não é nenhuma formula mágica, é só disciplina.

 
   
 

Não há como falar em moda no Brasil sem citar seu nome. Constanza Pascolato é sinônimo de elegância e um dos ícones do mundo fashion no país. Nesta entrevista ao QUEB, Constanza revela um pouco de seu vasto conhecimento sobre comportamento e, como não poderia deixar de ser, sobre moda. Usando óculos escuro e vestida impecavelmente, ela disse que, atualmente, não existem mais produtos de luxo, "o luxo hoje é caro mas não é raro, então ele não é mais luxo".

Ela fala ainda sobre o lançamento de seu novo livro "Confidencial" - obra esta que ela veio autografar em um dos shoppings mais bacanas de Porto Alegre, o BarraShoppingSul. Conheça um pouco sobre a mulher que vem acompanhando a moda brasileira desde a década de 50.

Foto: divulgação FNAC.

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