Gabriel O Pensador
  29/11/2007
  Lydi Araújo e Juliana S. Machado
 


Como começou o seu envolvimento com o Canta Brasil?
Recebi um convite para o 1º Encontro Internacional de Educação, que rolou em 2005. A gente já se conheceu na atividade, e eu gostei do trabalho deles. Visitei algumas escolas e vi o trabalho que eles faziam. Como eu já tinha uma ONG no Rio, que estava começando, sei como é difícil batalhar para fazer esse tipo de trabalho. Agora, eu e o pessoal do Canta Brasil já somos amigos. A gente se diverte juntos, é como se fosse eu e a minha banda. Mas o mais gostoso é ver uma criança cantando, e a alegria que os nossos encontros proporcionam para a galera. Fora isso, tem o lado mais sério, como as dificuldades que a galera passa por falta de grana mesmo. O Canta Brasil ainda vai crescer muito, mas a gente já vê os resultados acontecendo.


Conta um pouco mais sobre a sua ONG, como é o trabalho que você realiza lá.
O nome da minha ONG é Pensando Junto, e ela fica na Rocinha. É um projeto bem pequeno, tem 30 integrantes, para os quais a gente oferece cesta básica, aulas de reforço de matemática e português e aulas de arte, DJ, rap e dança, que são as coisas que eles gostam mais. E tem ainda os passeios que a gente realiza. É trabalhoso, mas muito prazeroso.


Esse trabalho social é uma conseqüência do seu trabalho como músico? Ou você já se interessava por isso há mais tempo?
Sempre fui muito ligado nessa coisa de desigualdade. Quando eu tinha uns 10 anos, minha mãe começou a ganhar grana, e a gente foi mudando para bairros melhores. Da Lagoa, fui para São Conrado. Aí, na adolescência, conheci a galera da Rocinha. Os caras tinham a minha idade, e a gente surfava junto, jogava videogame, jogava bola. Como meus pais sempre foram democráticos, eles iam lá em casa. Convivendo com essa galera, eu observava o preconceito e a desigualdade na prática.


Depois que você ficou conhecido, o que mudou?
Quando comecei a cantar e ficar conhecido pelas letras com teor social, comecei a receber vários convites para visitar creches, ONGs, escolas, e fui visitar algumas. Aí, eu conheci a Dreams Brasil (www.dreamscanbe.org) e tive a idéia de criar o meu projeto, que tem ainda o meu tio e um amigo junto comigo. O pessoal da Dreams deu uma ajuda na organização. A gente começou bancando, mas hoje, embora a gente segure a onda dos custos quando precisa, a ONG já tem uma empresa que apóia. Mesmo assim, temos poucos funcionários e poucos integrantes. É uma ONG bem pequena. Até pensamos em crescer, pois tem gente na fila de espera, crianças querendo entrar. Mas ser pequeno tem o lado bom, porque a gente conhece as crianças, os pais, os responsáveis e os professores bem de perto. Mas a idéia é ir com calma. E eu sempre fui muito low profile, nunca divulguei muito a ONG. Agora, que está rolando de fazer uma coisa ou outra na mídia, aí falo mais sobre o assunto, que começou com um grupo de garotos que eu conhecia do sinal de trânsito. Sempre perguntava se eles estavam na escola, dava coisas, como ovo de Páscoa e roupa, mas tudo muito informal, para uma galerinha que eu conhecia.


Falando agora sobre sua música, queria que você comentasse um pouco sobre as suas inspirações. Como é fazer uma música de protesto e, ao mesmo tempo, usar o bom humor?
O humor é uma ferramenta boa para fazer crítica. Sempre gostei de personagens do Chico Anísio e do Jô Soares, que tinham essa onda de criticar. E no samba, também tem isso. Em outros estilos musicais, idem. Quando dá para usar o humor para falar de assuntos mais difíceis, eu acho legal. O humor, às vezes, até ajuda a falar sobre certos temas. Mas eu também tenho músicas mais sérias. Nem sempre eu uso o humor, até porque, às vezes, a gente precisa falar sério mesmo.


Se você fosse compor uma música agora, sobre um tema que está o incomodando, que tema seria esse?
Pô, tem muita coisa, né? Mas a primeira, que é a razão de várias outras, é a impunidade, principalmente na política. A gente está na mão dos caras. Dá para fazer música sobre saúde, educação, buracos nas estradas, violência... Mas, se você for pensar, tudo é conseqüência da corrupção. O Brasil tem grana para cuidar bem dos seus cidadãos, e a grana vai embora e não se sabe para onde. Quer dizer, até se sabe, mas enfim... A corrupção só está aí por causa da impunidade. A gente tinha que conseguir diminuir a impunidade.


E sobre o próximo disco, é verdade que você pensa em fazer um CD misturando rap com sons típicos de várias regiões do país?
Não dá para adiantar muita coisa, porque estou pesquisando ainda, gravando algumas coisas. Mas é um CD com música regional misturado com rap, que ainda vai demorar um pouquinho para sair.


Crédito das fotos:
Arisson Araujo (camarim) e Luís Augusto "Tatu" (show).

Para saber mais sobre Gabriel O Pensador, acesse www.gabrielopensador.com.br.
Ele ainda tem um blog no http://bloglog.globo.com/gabrielopensador/.
O site da ONG Pensando Junto está em fase de construção, mas o link é www.pensandojunto.org.br/.

 
   
 
O envolvimento social de Gabriel O Pensador vai além da música. Acostumado a conviver com pessoas de todas as classes desde criança, ele acabou se transformando num cara consciente e, mais do que isso, atuante. Além de ter sua própria ONG, ele ainda participa de projetos de diversas entidades. Sua visita a Porto Alegre, aliás, rolou a convite do movimento social Canta Brasil (www.cantabrasilsul.org.br), de Canoas, do qual Gabriel é padrinho. Em dois dias, ele visitou escolas e se apresentou no 2º Encontro Internacional de Educação, que ocorreu em Gravataí, de 21 a 24 de outubro. Entre um compromisso e outro, Gabriel bateu um papo com o Queb.
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