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No prefácio de seu livro Superbrinquedos Duram o Verão Todo, o escritor inglês Brian Aldiss narra um encontro com Stanley Kubrick no qual passaram o tempo conversando sobre Guerra nas Estrelas, e discutindo "os motivos que levam histórias até bem bobas a se tornarem de fato uma forma de arte". Nesta conversa desenvolveram uma teoria sobre os fatores necessários para a realização de um filme de ficção científica de sucesso inspirado nos contos de fadas. As conclusões para a trama foram: um rapaz de origem humilde que precisa combater um mal monstruoso, um grupo variado de sujeitos, inúmeros desafios superados, o mal derrotado apesar de todos os empecilhos e o jovem obtendo a mão de uma princesa. Finalizaram suas elucubrações às gargalhadas, pois haviam descrito Guerra nas Estrelas. Ao fundamentar a estrutura de Avatar em arquétipos comuns, e num visual tão fantástico quanto o universo dos contos de fadas, James Cameron, assim como Aldiss e Kubrick, também descobriu a sua fórmula de Guerra nas Estrelas. A concepção de Pandora, um planeta onde todas as criaturas estão interligadas numa espécie de simbiose, é um exemplo daquilo que Cameron melhor saber fazer, utilizar a tecnologia para causar intensas experiências sensoriais. Após anos de pesquisa, a equipe de Cameron desenvolveu câmeras especiais para gravar em 3D estereoscópico, um processo que maximiza a perspectiva, realçando a sensação de profundidade. O resultado é um visual de inegável poder hipnótico, e talvez aí incida o maior perigo de Avatar, a catarse pirotécnica se sobrepondo aos elementos narrativos. A anunciada revolução cinemática de Avatar se limita as sua qualidades técnicas, enquanto sua trama se revela pouco inovadora, limitada talvez pelas citadas soluções arquetípicas, comuns ao nosso imaginário, e que investem mais no duelo maniqueísta entre bem e mal do que na dubiedade da essência humana. Portanto a sensação de deja vu é constante, como uma velha história recontada com outras cores. A dualidade é um mote constante na obra de Cameron, e o conflito, apesar de ser a força motriz de sua obra, nunca teve a pretensão de funcionar como tese filosófica, mas sim como elemento deflagrador de excitantes aventuras ou de tragédias monumentais. Piranhas II- Assassinas Voadoras (1981), seu primeiro e desprezado filme, contrapunha o homem com as conseqüências da intervenção genética na natureza. O Exterminador do Futuro (1984) explorava o confronto entre a humanidade e a tecnologia, enquanto Aliens (1986) e O Segredo do Abismo (1989) questionavam a racionalidade diante do horror do desconhecido, e até mesmo Titanic (1997) não se isenta de funcionar como uma metáfora sobre a impotência dos homens diante das forças da natureza. Em Avatar mais uma vez Cameron explora o choque entre os interesses humanos e magnitude da natureza, numa analogia óbvia ao imperialismo americano e a exploração desregrada dos recursos naturais, mas esquece da racionalidade preferindo assumir um tom mais emocional, beirando perigosamente a pieguice. Num tempo futuro, Jake Sully (Sam Worthington, o rapaz humilde) é enviado ao planeta Pandora, onde manipulará um avatar, um corpo modificado geneticamente para onde transferirá sua mente. Através deste novo corpo, Jake que é paraplégico (o desafio superado), participará de uma missão para contatar a raça dos Na'vi. Aos poucos Jake é cativado pelos costumes deste povo e por Neytiri (Zoe Saldana, a princesa), preferindo abdicar da raça humana para lutar ao lado dos Na'vis contra os cruéis mercenários humanos que exploram as riquezas naturais do planeta. O líder dos mercenários, o Coronel Miles (Stephen Lang) e o burocrata Parker (Giovanni Ribisi) são a personificação do "mal monstruoso" que precisa ser combatido. Cameron segue a cartilha dos filmes de gênero, não arrisca ousar além do esperado e entrega uma trama familiar, uma fábula ecológica feita sob medida para emocionar. Em poucos anos a tecnologia, hoje inovadora de Avatar, estará superada, e se o libelo ecológico de Cameron terá forças para sobreviver e prosperar como a saga de George Lucas, é uma incógnita que apenas o tempo responderá. Antes, porém, James Cameron terá de responder pelo processo de plágio movido pelo diretor Marc Adler, e explicar as inegáveis semelhanças com a animação Delgo (2008). Resta ao público, longe desta batalha judicial, se deixar hipnotizar pela pirotecnia e pelas belezas de Avatar, mesmo que lhe falte consistência, afinal, cinema é a arte da ilusão. Cristian Verardi Avatar /E.U.A/ 2009 Direção: James Cameron Com: Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Sam Worthington, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, C.C.H. Pounder, Stephen Lang, Joel David Moore¹, Dileep Rao, Wes Studi, Laz Alonso, Peter Mensah, Matt Gerald, James Pitt, Amy Clover. |